A gravidez depois dos 30 anos está cada vez mais freqüente. Seja por falta de oportunidades, por falta de independência dos pais, por não encontrar o par ideal ou por privilegiar a carreira ou formação, enfim, pelos mais variados motivos, a mulher acaba tendo seu primeiro bebê a partir dos 30 ou 35 anos de idade.
A Organização Mundial de Saúde, conseqüentemente o Ministério da Saúde, chamam de gravidez tardia aquela que aparece na mulher com mais de 35 anos. Por convenção, até que isso seja revisto, a chamada gravidez tardia deve ser considerada uma gravidez de risco. Um estudo desenvolvido pelo IBGE revela que o número de mães com mais de 40 anos no Brasil cresceu 27% entre 1991 e 2000. De 2000 a 2010 acredita-se que esse aumento seja muitíssimo mais expressivo.
Em geral a gravidez proporciona na mulher de qualquer idade uma expressiva mudança na representação da vida, do mundo e de si própria. Isso, por si só, já é um desafio adaptativo à gestante. Fisiologicamente, tal esforço adaptativo caracteriza um evento estressor, tanto em seus aspectos físicos quanto psicológicos.
Hoje em dia, a maioria das questões orgânicas relacionadas à gravidez em mulheres com mais de 35 anos pode ser resolvida pela obstetrícia e outros fatores, além da idade, são mais relevantes para a gravidez ser considerada de risco. Do ponto de vista psicológico, se for considerada apenas a idade da gestante, o termo "gravidez de risco" é sem sentido, conforme veremos.
Convencionalmente, gravidez de risco é aquela que tem maior probabilidade de evolução desfavorável, seja para o feto ou para a mãe (Buchabqui, Abeche & Brietze, 2001). Ao se considerar a gravidez de risco deve-se considerar também os chamados fatores de risco, ou seja, os fatores que contribuem para que a gravidez seja de risco.
Os fatores orgânicos de risco são objeto da obstetrícia e não nos estenderemos neles aqui. Para a psiquiatria, entretanto, um dos fatores de risco é a própria notícia para a gestante de que sua gravidez é de risco. A expectativa do risco geralmente atribuído à grávidas com mais de 35 anos, e muitas vezes sem uma avaliação mais cuidadosa, tende torná-las mais frágeis, apreensivas e ansiosas.
Além do medo que o próprio nome "gravidez de risco" desencadeia, alguns outros fatores podem contribuir para que a gestação seja emocionalmente mais difícil. Segundo Isfer (1997), os fatores emocionais de risco podem ser divididos entre aqueles anteriores à gravidez e aqueles que surgem com ela.
Questão Psicológica
Do ponto de vista emocional, os fatores de risco para a gravidez chamada tardia são, principalmente, os antecedentes emocionais da gestante. Entre esses antecedentes, os mais importantes são os quadros depressivos e ansiosos prévios e que necessitaram tratamento médico, eventuais surtos psicóticos anteriores e dependência química.
A gravidez é o início do processo da maternidade, o qual dura a vida toda e altera completamente o sentido da vida ou os valores existenciais da mulher. A representação e o significado que ela tem de sua vida muda com a gravidez e a cada nova gravidez.
Inegavelmente a gravidez é um importante marco emocional no curso da vida. Entre os inúmeros fatores que influenciam psicologicamente o andamento da gravidez os mais relevantes são, basicamente, a estrutura de personalidade da gestante, o nível de resolução de seus conflitos, modernamente chamado de resiliência, e seu suporte sócio-familiar.
Claro que as pessoas de temperamento difícil terão dificuldades durante a gravidez e depois dela, assim como a gravidez será mais difícil também às pessoas com dificuldade na adaptação e superação das dificuldades. Na mesma linha de pensamento as dificuldades serão maiores em gestantes de famílias problemáticas e desestruturadas.
Sobrecargas psicológicas que ocorrem durante a gestação podem contribuir para o desenvolvimento de transtornos emocionais. Entre essas tensões emocionais está a própria rejeição da gestação pela grávida e pelas pessoas importantes à ela. Esse desconforto emocional pode ser um importante fator de risco psicológico. A adaptação psicológica às evidentes mudanças decorrentes da gravidez e a perspectiva de nascimento do bebê também são agentes estressores bastante expressivos e, conseqüentemente, causadores de forte ansiedade.
A ansiedade da mãe com mais de 35 anos pode ainda ser uma resposta à enorme apreensão sobre os possíveis efeitos que a gestação tardia traria ao feto. Felizmente os atuais exames pré-natais, cada vez mais completos, podem aliviar boa parte dessa angústia. A orientação com profissionais competentes pode aliviar o mal estar emocional causado pelo excesso de informação, geralmente incompleta, oferecida por pessoas leigas ou obtidas obsessivamente no "Dr. Google".
Em qualquer idade o grau excessivo de ansiedade da gestante, caso haja, pode interferir no organismo todo. Seus efeitos podem ser sentidos, inclusive, no tempo e início do trabalho de parto, pode causar distúrbios relacionados à função uterina e à atividade muscular. Além disso, os escores de Apgar, que é uma espécie de nota da vitalidade do recém-nascido, tendem a ser mais baixos nos filhos de gestantes que apresentaram alto grau de ansiedade (Petrie & Williams, 1996).
Vantagens e Desvantagens
Na psiquiatria o balanço entre os prós e os contras em relação às mães com mais de 35 anos tem pendido mais para o lado das vantagens. Alguns trabalhos mostram até mesmo vantagens psicológicas das gestantes com idade avançada em relação a aceitação do bebê como uma pessoa separada delas e com características próprias, contribuindo assim para seu bom desenvolvimento emocional (DeVore, 1983).
De modo geral as mães mais maduras se encontram psicologicamente melhor preparadas e decididas para assumir a gravidez e a maternidade. Além disso, geralmente a mãe mais madura tem menos conflitos emocionais, sua gravidez pode ter sido mais planejada, mais desejada e, na maioria das vezes, mais concordante com o parceiro.
A gravidez depois dos 35 anos é, pois, uma decisão de duas pessoas maduras, em geral vivendo um relacionamento mais sólido e estável, com maior experiência de vida, geralmente com estabilidade econômica e que assumem plenamente a responsabilidade dessa decisão. Na prática o que se vê é uma situação onde o recém-nascido é aguardado como um privilégio e um presente, proporcionando uma grande dose de felicidade aos pais.
Por outro lado, dependendo do perfil afetivo da gestante com mais de 35 anos, pode haver uma postura emocional desfavorável que se manifesta, entre outras formas, através da ansiedade quanto aos cuidados com a criança no pós-parto (Reece, 1993).
Também tem influência no estado emocional da mãe com mais de 35 anos, a idéia de que seu bebê correria mais riscos durante a gravidez e o parto, mesmo sem que tenha havido qualquer problema de saúde ou complicação durante a gestação. A comunicação alarmista desses conceitos, alguns até duvidosos ou falsos, podem determinar sentimentos de culpa nas mulheres que adiaram a gestação.
As pesquisas e revisões na literatura médica reconhece aumento das possibilidades de problemas para o bebê de mães com mais idade, porém, considerando-se a questão obstétrica e biológica. Por conta disso Francis (1985) é incisivo ao afirmar que a gravidez seria ideal em mulheres entre 20 e 30 anos, tolerável entre 30 e 34 anos, indesejável entre 35 e 39 anos e devendo ser evitada depois dos 40 anos. Na psiquiatria, entretanto, a questão é outra e não se observa nada disso. Exceto as gestantes que tenham tido antecedentes emocionais expressivos, de modo geral as mais maduras apresentam qualidade de vida emocional melhor que as mais jovens.
Ao não se reconhecer maior probabilidade de problemas emocionais em gestantes com mais de 35 anos, não se pretende com isso reduzir a importância da idade materna avançada. De fato, organicamente ela pode provocar complicações no período da gravidez ao puerpério, especialmente quanto mais avançada ainda for a idade. Pretende-se, do ponto de vista psicológico, alertar para o fato do alarde sobre a classificação "gravidez de alto risco" aumentar mais ainda os níveis de ansiedade das mães com mais de 35 anos.
Para a psiquiatria o critério idade não deve ter valor absoluto ou exclusivo nas mulheres grávidas com mais de 35 anos. Deve-se considerar também os aspectos subjetivos, a história de vida e as condições sociais da gestante. As grávidas com mais de 35 anos devem ser acolhidas plenamente pelos progressos médicos, minimizando assim a conotação de "alto risco".
Hoje em dia, o potencial de risco fetal associado a uma mulher com mais de 35 anos não é o mesmo de há 30 anos. Os avanços dos meios de diagnóstico, da ginecologia, obstetrícia, neonatologia, genética e da medicina em geral reduziram os riscos da mãe e do feto, tanto para gravidezes de mulheres mais velhas quanto mais novas.
Para referência:
Ballone GJ - Gravidez depois dos 35 anos, in. PsiqWeb, disponível em www.psiqweb.med.br, revisto em 2011.
Buchabqui J, Abeche A, Brietze E - - Assistência pré-natal. Em F Freitas S Martins-Costa, J Ramos, J Magalhães (Orgs). Rotinas em obstetrícia (pp. 23-37). Porto Alegre: Artes Médicas, 2001.
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Petrie RH, Williams AM - Trabalho de parto. Em RA Knuppel, JE Drukker (Orgs.), Alto risco em obstetrícia: Um enfoque multidisciplinar (pp. 233-250). Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.
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Fonte de consulta: www.psiqweb.med.br