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Dalton Trevisan, o Mestre do Conto

Professor Jorge Queiroz    Por Jorge A.Queiroz e Silva      
  Domingo, 14/06/2020, 11h45
  Fonte: Por e-mail - De Curitiba
  Imagem: JB Treinamento em Informática | Um jeito novo de ensinar          Bandeira do Brasil

Foto: A capa da 12a edição que ilustra o livro Em busca de Curitiba perdida é criação de Poty Lazzarotto (1924-1998).
Foto: A capa da 12a edição que ilustra o livro Em busca de Curitiba perdida é criação de Poty Lazzarotto (1924-1998).

Li nos últimos 12 anos inúmeros livros do curitibano Dalton Trevisan.  Ao longo da trajetória literária de seus saudáveis e lúcidos 95 anos, desenvolve a arte de aperfeiçoar constantemente os textos. E ao trabalhar e retrabalhar as frases, com intuito de deixá-las concisas, os mesmos contos são republicados em novas versões.

Essa obstinada virtude faz dele campeão de prêmios literários: Camões, o mais significativo de literatura em língua portuguesa, Jabuti, Oceanos, Machado de Assis, entre outros.

De acordo com Sérgio Sant'Anna (1941-2020), consagrado e saudoso contista, Dalton é o "maior escritor brasileiro vivo".

Para conhecer detalhes das obras do escritor Dalton Trevisan, sugiro visitar, oportunamente, o Museu Guido Viaro, rua XV de Novembro, 1348, centro da capital, que reserva um espaço especial ao escritor, a Sala Dalton Trevisan.

Tenho trabalhado em sala de aula contos do Mestre do Conto, por exemplo, Uma Vela para Dario, do livro Em busca de Curitiba perdida (Record, 2012, p. 21-24):

  Uma vela para Dario

Dario vem apressado, guarda-chuva no braço esquerdo. Assim que dobra a esquina, diminui o passo até parar, encosta-se a uma parede. Por ela escorrega, senta-se na calçada, ainda úmida de chuva. Descansa na pedra o cachimbo.

Dois ou três passantes à sua volta indagam se não está bem. Dario abre a boca, move os lábios, não se ouve resposta. O senhor gordo, de branco, diz que deve sofrer de ataque.

Ele reclina-se mais um pouco, estendido na calçada, e o cachimbo apagou. O rapaz de bigode pede aos outros se afastem e o deixem respirar. Abre-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe tiram os sapatos, Dario rouqueja feio, bolhas de espuma surgem no canto da boca.

Cada pessoa que chega ergue-se na ponta dos pés, não o pode ver. Os moradores da rua conversam de uma porta a outra, as crianças de pijama acodem à janela. O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada, soprando a fumaça do cachimbo, encostava o guarda-chuva na parede. Mas não se vê guarda-chuva ou cachimbo a seu lado.

A velhinha de cabeça grisalha grita que ele está morrendo. Um grupo o arrasta para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida? Concordam chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede - não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.

Alguém informa da farmácia na outra rua. Não carregam Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito peso. É largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobrem o rosto, sem que façam um gesto para espantá-las.

Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delícias da noite. Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.

Um terceiro sugere lhe examinem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficam sabendo do nome, idade, sinal de nascença. O endereço na carteira é de outra cidade.

Registra-se correria de uns duzentos curiosos que, a essa hora, ocupam toda a rua e as calçadas: é a polícia. O carro negro investe a multidão. Várias pessoas tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes.

O guarda aproxima-se do cadáver, não pode identificá-lo - os bolsos vazios. Resta na mão esquerda a aliança de ouro, que ele próprio - quando vivo - só destacava molhando no sabonete. A polícia decide chamar o rabecão.

A última boca repete - Ele morreu, ele morreu. A gente começa a se dispersar. Dario levou duas horas para morrer, ninguém acreditava estivesse no fim. Agora, aos que alcançam vê-lo, todo o ar de um defunto.

Um senhor piedoso dobra o paletó de Dario para lhe apoiar a cabeça. Cruza as mãos no peito. Não consegue fechar olho nem boca, onde a espuma sumiu. Apenas um homem morto e a multidão se espalha, as mesas do café ficam vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.

Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver. Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.

Fecham-se uma a uma as janelas. Três horas depois, lá está Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó. E o dedo sem a aliança. O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva, que volta a cair.
 
Esse conto, de linguagem coloquial e incisiva, além de traduzir a realidade da sociedade individualista e corrupta, é a esperança de uma sociedade solidária, manifestada no menino.

  Jorge Antonio de Queiroz e Silva é historiador, palestrante, professor.


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