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A História do Cachorro Lindão

Zelia Bonamigo    Por  Zélia Maria Bonamigo, 
  Jornalista e antropóloga
  Sábado, 23/03/2019, 17h50


Alduino, meu pai, sempre gostou de cães. Brincava com eles colocando-os diante de espelhos, inventava ruídos sublinguais, criava sons estranhos. Curtia colocar o chapéu na cabeça porque eles se sentiam convidados a passear, e latiam festivos.

Após eu chegar ao sítio com a principal missão de cuidar do meu pai, com doença de Alzheimer, em abril de 2016, precisava ir de carro à cidade pelo menos uma vez por semana, passando pela estrada onde um cão se distinguia. Ao ver o carro, fazia festa e "pedia" carona. Eu achava interessante, mas desconfiava que pertencesse a uma das famílias que moravam ao lado da estrada.

Nada conheço de seus primeiros anos de idade. Conheço os três últimos, quando a sorte dele, de cachorro de estrada na linha Nossa Senhora da Saúde em Ouro-SC, começou a mudar. Após a morte da cadela Lessie, muito especial, ao procurarmos outro animal, a indicação da Ong Fauna Amiga foi o cão que vivia na estrada e corria risco de vida.

Foi adotado e passou a morar no sítio de Alduino Angelo Bonamigo, sendo castrado logo em seguida. Foi bem-vindo e recebeu o nome de Lindão. Apoiar a castração de animais é um grande ato de amor.

Chegou tímido, sensível. Foi aí que me disseram que era o cão que tentava interagir com os motoristas naquela estrada. Mas, como estava em local novo, com o passar das primeiras semanas, ainda não produzia latidos, apesar de ser comunicativo e tentar enriquecer seu cofre de afetos com novos carinhos.

Os dias passaram e, numa tarde, ao ver um estranho chegar, aí sim, ouvi seu latido forte, corajoso, e suas corridas rápidas para avisar: "tem gente!".

Na mata próxima, havia um cachorro e uma cadela, que, abandonados ainda pequenos, quando uma vizinha se transferiu, se tornaram selvagens. De uma ninhada de filhotes, só foi possível salvar o menor, que foi abandonado pela mãe próximo de casa. Se chama Flufy.

Posteriormente, com o falecimento de meu pai, uma série de mudanças ocorreu na propriedade, e o sítio foi vendido. Era necessário encontrar lugar para recolocar os cães. Eu comecei a busca de possíveis cuidadores ou tutores. No final, Vitor e Analdete Paza, vizinhos, acolheram, amorosamente, o Flufy. Belo, o menor, foi morar com Delma, minha irmã. Apolo, o maior, que já ficava na mata, lá continuou. Mas faltava colocar o Lindão.

Familiares também se esforçaram em resolver, mas pessoas de boa vontade não tinham espaço suficiente para acolhê-lo. Outras pessoas não se interessaram, ou porque já tinham muitos cães, ou por considerarem que cão grande deve ficar no mato.

Assim, Lindão esteve comigo até os últimos dias em que fiquei no sítio, quando um casal se dispôs a ficar temporariamente com ele. Isso ajudou, pois deu tempo para Jorge e eu fazermos minha mudança de volta ao lar, em Curitiba.

Após 40 dias, no entanto, o casal avisou que precisava se transferir e Lindão não poderia ir com eles. Pedi ajuda para minha irmã Delma, que já estava com o Belo, para cuidar dele, por uns dias, até que eu e Jorge preparássemos a viagem dele conosco, de carro. Havia alguém interessado em ficar com ele, mas desistiu por problemas pessoais.

Eu e Jorge nos perguntamos novamente: "Não dá mesmo para ele morar com a gente?" Já havíamos nos questionado antes, mas... apartamento pequeno, cheio de livros e papéis (Jorge é professor, eu sou jornalista e trabalho na preparação de outros livros), ficaria apertado para ele.

Considerando que Deus disse: "Faça-se a luz!", e a luz foi feita, eu e Jorge agimos: "Faça-se espaço para o Lindão!", e um lugarzinho novo foi feito.

O anjo de quatro patas veio continuar sua jornada com a gente.

Zélia Maria Bonamigo, Jornalista e antropóloga.
zeliabonamigo@uol.com.br



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