Notícias

Religiosidade católica brasileira

   Por Jorge A.Queiroz e Silva
  Segunda-feira, 04/02/2019, 08h53
  Fonte: Por e-mail



Estátua de Padre Cícero. Crédito da imagem: Portal Paulinas.
Estátua de Padre Cícero. Crédito da imagem: Portal Paulinas.

Vive-se intensamente, no Brasil, a presença da religiosidade católica. Sem dúvida, uma das marcas da cultura nacional são as festas religiosas. O calendário apresenta muitas datas religiosas e age como doutrinador por inserir os indivíduos num contexto cultural comum. Conforme Carlos Alberto Steil, teólogo e filósofo, "somos envolvidos num calendário que nos remete constantemente a um imaginário religioso que subjaz à nossa experiência social e histórica". Reforçando a argumentação de Steil no tocante à participação popular em festas religiosas e nos santuários brasileiros, segundo a Expotour Católica, anualmente, ocorrem movimentações de mais de 35,4 milhões de pessoas por motivos religiosos no interior do país.

Entre os lugares brasileiros que apresentam maior ênfase de religiosidade católica destacam-se: as peregrinações ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida, na cidade de Aparecida do Norte-SP, ao Santuário Bom Jesus da Lapa, localizado na cidade da Lapa-BA, ao santuário de Madre Paulina (falecida em 1942 e que foi beatificada pelo papa João Paulo II, em 1991), localizado na pequena cidade de Nova Trento-SC; as festas: de Nossa Senhora da Penha, no Rio de Janeiro-RJ; de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Salvador-BA; de Nossa Senhora dos Navegantes, padroeira de Porto Alegre-RS; a romaria diária dos devotos de padre Cícero (1844-1934), em Juazeiro do Norte-CE e a romaria do Círio de Nazaré em Belém-PA.

Influência ibérica na cultura

É marcante a influência dos ibéricos (portugueses e espanhóis) na cultura brasileira, conforme texto que segue:

Nossa Senhora da Penha é a padroeira dos capixabas. Sua imagem foi trazida por um frei espanhol em 1558 e colocada no alto de um penhasco, na cidade de Vila Velha, Espirito Santo. Junto à imagem foi fundado um convento para abrigar os frades franciscanos. São mais de quatro séculos de fé e milagres que alimentam a devoção de romeiros e peregrinos que desde 1570 se deslocam para este santuário. Mais de 200 mil pessoas participam todos os anos de uma procissão que vai da catedral de Vitória ao Convento da Penha. (Steil).

A festa de Nossa Senhora dos Navegantes, que ocorre todos os anos no dia 2 de fevereiro, em Porto Alegre-RS, no rio Guaíba, é de procedência portuguesa. Relata-se que a confecção dessa imagem foi encomendada a um artista português de nome ignorado.

Quantidade expressiva de barcos e incontáveis fiéis participam da procissão que se dá sobre as águas. Ao mesmo tempo em que é carregada a imagem da santa e levada para o Porto dos Navegantes, os devotos jogam nas águas do rio Guaíba presentes (grinaldas, flores) para Nossa Senhora dos Navegantes, na esperança de verem atendidos seus pedidos (conseguir casamento, curas de doenças e outros). Conforme Steil, o culto gaúcho conta em média com 600 mil pessoas e

está intimamente ligado às aguas, associando Nossa Senhora e Iemanjá num sincretismo que se manifesta nos rituais e gestos dos devotos que ocorrem nas procissões pelos rios, mares e terra (...). Um número aproximado é encontrado nas praias, fazendo oferendas nos cultos de umbanda, presididos por pais e mães-de-santo.

Entender a mistura ou a união dos elementos culturais distintos e contrários (sincretismo), no caso catolicismo/umbanda, exige discernimento e respeito. Aliás, a própria festa de Nossa Senhora dos Navegantes tem o respaldo do clero. Inteligentemente se apoia Steil em estudiosos como Pierre Sanchis e Lévi-Strauss e defende a concepção de que o sincretismo se realiza de forma contínua, podendo ser encontrado nas culturas e religiões que estão em interação. Steil afirma:

Não há religiões ou culturas puras ou não-sincréticas, uma vez que é próprio dos sistemas sociais, religiosos ou não, reproduzir-se e perpetuar-se através da incorporação de símbolos e signos de outros sistemas e da reavaliação permanente dos seus próprios (...). Cabe ao praticante beber de todas as fontes, de modo que o sincretismo é a própria condição de acesso à plenitude e multiplicidade do sagrado (...), pois é justamente nas fronteiras que a multiplicidade do sagrado se manifesta e se torna acessível.

Essa circularidade de culturas religiosas que se desenvolvem nas práticas populares estimula a promoção da unidade na diversidade, caracterizando-se como essência do pensamento Cristão.

Pe. Cícero

Estima-se que mais de dois milhões de pessoas por ano, vindas de várias regiões brasileiras, dirigem-se para a cidade-santuário de Juazeiro do Norte-CE, terra de pe. Cícero Romão Batista (1844-1934). No imaginário coletivo, pe. Cícero é milagreiro, por isso ocorrem inúmeras romarias em direção à igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, onde se encontra o túmulo com os restos mortais do sacerdote. Os fiéis acreditam nas curas e no auxílio do religioso que faleceu há 84 anos. Na cidade de Juazeiro do Norte, existe a estátua de pe. Cícero que mede 27 metros de altura e serve de referencial e passagem obrigatória a todos os romeiros. Conforme Steil, "o mito fundante da romaria é relatado na forma de um milagre que teria ocorrido no período de vida do padre Cícero quando, numa celebração da missa, a hóstia se transformou em sangue."

Relação dos santuários atuais com os da Grécia Antiga

José Ramos Tinhorão, historiador, realiza abordagem de rastreamento histórico acerca santuários católicos, relacionando-os aos oráculos da antiga Grécia:

Com o advento do cristianismo, a crença de que o próprio local do nascimento do filho de Deus fora universalmente anunciado pelo fenômeno do aparecimento de um cometa - o que permitiria aos peregrinos, como os Reis Magos, dirigirem-se a Jerusalém para um primeiro rito de adoração -  criaria, em consequência, pelo correr da Idade Média, o hábito das romarias de fiéis a distantes santuários (tal como as dos antigos aos oráculos).

A respeito dos oráculos gregos, constatou-se a existência de vários deles, sendo o mais famoso o da Ilha de Delfos. Os povos helenos (gregos) eram supersticiosos, ou seja, procuravam entender o seu destino deixando a cargo da vontade dos deuses ou procurando os oráculos. Conforme Mario Curtis Giordani, historiador, os indivíduos que consultavam os oráculos originavam-se de regiões longínquas, na busca das respostas para as mais variadas questões que diziam respeito aos problemas pessoais e aos assuntos pertinentes ao Estado.

Religiosidade católica em Curitiba  

Indivíduos afirmam que frei Miguel em vida e após sua morte é milagreiro. Crédito da imagem: Província São Lourenço de Brindes.
Indivíduos afirmam que frei Miguel em vida e após sua morte é milagreiro. Crédito da imagem: Província São Lourenço de Brindes.

Curitiba tem, a exemplo do restante do País, a sua religiosidade. Conta-se que a imagem de Nossa Senhora Luz dos Pinhais, padroeira dos curitibanos, foi trazida pelos portugueses. Segundo o Paraná Turismo, o sentimento religioso para com Nossa Senhora da Luz teve seu início em Portugal no século XV. O dia em que se dá a comemoração da padroeira é 8 de setembro, quando se realiza procissão formada por boa quantidade de devotos.

Segundo a Arquidiocese de Curitiba, não se tem certeza do ano em que foi criada a paróquia Nossa Senhora da Luz de Curitiba. Provavelmente deve ter sido em 1668. Os documentos indicam que no ano de 1683 ocorreu a rubrica do primeiro livro de registro de batizados, sendo o pe. João de Souto o pároco.

No centro de Curitiba, existe o memorial a Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, situado na confluência das ruas São Francisco e Barão do Serro Azul e que teve a sua inauguração em 8 de setembro de 1993. Patrimônio histórico e cultural, a imagem da padroeira de Curitiba "possui 2,5m e 650 quilos, colocada sobre um pedestal cilíndrico de 10m de altura. A autora do molde em gesso foi a artista Maria Inês Di Bella, tendo sido o projeto em bronze realizado pela Fundição Adalberto Baso. (Paraná Turismo).

Miguel Hilário Bottacin (1921-1997), frade capuchinho, situa-se no contexto da cultura católica, inclusive assemelhando-se ao padre Cícero, santo popular nordestino não canonizado, citado neste trabalho. No pátio da capela São Leopoldo Mandic, à rua Santa Eulália de Barcelona, 273, Conjunto Osvaldo Cruz I, em Curitiba-PR, está sepultado frei Miguel. Este recebe quase diariamente indivíduos que professam sua fé e afirmam que o sacerdote em vida e após sua morte é milagreiro, inclusive, a capela foi transformada em santuário.

No Paraná há três outros lugares que atraem romeiros: em Siqueira Campos (paróquia dos freis capuchinhos) existe o santuário do Bom Jesus da Cana Verde; em Brotas (próximo de Pirai do Sul), os devotos se dirigem ao santuário de Nossa Senhora das Brotas e no litoral, na cidade de Paranaguá, os fiéis procuram o santuário de Nossa Senhora do Rocio.

Considerações

Cabe observar que as súplicas ao frei Miguel, ao pe. Cícero e a outros feitas pelas pessoas, soam como protestos populares, que surgem como resultado de uma sociedade problemática numa pequena ou numa grande comunidade, juntando-se a outras vozes de outras comunidades. Ali, na reivindicação, nas fronteiras conhecidas ou além delas a cidadania está presente, porque de um modo ou de outro está sendo buscada a solução, por exemplo, o pedido do auxílio que não foi recebido nos postos de saúde. As pessoas buscam agir com os meios que estão ao seu alcance: a religiosidade.


  Jorge Antonio de Queiroz e Silva é historiador, palestrante, professor.


Clube de Autores - livros de todos os gêneros literários  | JB Treinamento
Livros de todos os gêneros literários!
+ noticias
INSTITUCIONAL

ENDEREÇO

Um Jeito Novo de Informar | Centro
87230000 | Jussara
SUPORTE