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Dia Internacional da Mulher

A Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu, em 8 de março de 1975, o Dia Internacional da Mulher. Mas por que foi escolhida esta data? Existem três narrativas e estas apresentam mulheres trabalhadoras e revolucionárias. Vejamos.

Na primeira narrativa, a greve e um incêndio na fábrica Cotton de Nova York, nos Estados Unidos, aos 8 de março de 1857. As operárias reivindicavam o direito à licença maternidade e jornada de dez horas. Numa tentativa de dificultar o movimento feminino, os policiais atearam fogo à fábrica, o que ocasionou a morte de 129 mulheres.  

Dia Internacional da Mulher | Sheryl Sandberg é destaque na capa do seu livroNa segunda narrativa, a revolucionária Clara Zetkin (1857-1933), jornalista, professora, deputada e militante do movimento operário, propôs ao II Congresso Internacional das Mulheres Socialistas realizado em Copenhague, na Dinamarca, no ano 1910, o estabelecimento do Dia Internacional da Mulher, para 8 de março, numa tentativa de homenagear as operárias que arderam no fogo até a morte, nos Estados Unidos, em 1857 (no entanto, alguns especialistas afirmam que Zetkin propôs a criação do dia, mas sem fixar uma data).

Na terceira narrativa, a intensa participação das mulheres no advento da Revolução Russa, em 23 de fevereiro de 1917 (pelo calendário Gregoriano, 8 de março). As mulheres que militavam no setor de tecelagem solicitavam, nas ruas, pão para os filhos e pediam a volta dos maridos e filhos que participavam da Primeira Guerra Mundial. Os soldados do Czar (soberano da Rússia) não dificultaram as manifestações das mulheres. Relata-se que essa reação pública feminina teria sido a primeira etapa da Revolução de Outubro, que originou a União Soviética.

Pois bem, embora existam essas três versões, os pesquisadores não encontraram nos documentos nenhum indicio que justifique o dia 8 de março de 1857 como o Dia Internacional da Mulher. Aliás, os relatos de incêndio ou greve encontrados são de dias e anos diferentes. Os jornais dão conta de que em 25 de março de 1911, a empresa Triangle Shirt Waist Company, em Nova York, sofreu um grande incêndio. Morreram 146 pessoas, a maioria do sexo feminino. Joana Maria Pedro, professora titular do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), reforça:

"O fato de as portas da empresa estarem fechadas durante o incêndio, de a fábrica ocupar os três últimos andares de um prédio que possuía dez pavimentos, de as divisórias e chão serem feitos de madeira, tornou o desastre ainda maior.

Portanto, ocorreram realmente greves e um grande incêndio. Nenhum desses acontecimentos, porém, foi em 8 de março de qualquer dos anos e, ainda mais, ocorreram depois de Clara Zetkin ter sugerido a criação do Dia Internacional da Mulher. Ela, portanto, não poderia ter feito essa sugestão em homenagem a esses acontecimentos, pois ainda não haviam ocorrido".

Considerações

Louvo a iniciativa de Sheryl Sandberg, que lançou o livro Faça acontecer - Mulheres, trabalho e a vontade de liderar, editado pela Companhia das Letras, 2013, tradução de Denise Bottmann, cuja finalidade da obra é arrecadar fundos para a criação do grupo Lean In (leanin.org), uma organização que estimula as mulheres à realização dos seus anseios, e para outras instituições que visam à causa da mulher.

No planeta há cerca de 4,4 milhões de meninas e mulheres no comércio sexual, Sheryl Sandberg desabafa: "Em países como o Afeganistão ou o Sudão, as meninas não recebem nenhuma ou quase nenhuma instrução, as esposas são tratadas como propriedade dos maridos, as mulheres que sofrem estupro geralmente são expulsas de casa por trazer desgraça à família. Algumas vítimas de estupro chegam a ser mandadas para a prisão por ‘crime moral'. Estamos séculos à frente do tratamento inaceitável que é dado às mulheres nesses países".

Na política, Sandberg esclarece: "Dos 195 países independentes no mundo, apenas 17 são governados por mulheres, incluindo Dilma Rousseff, presidente do Brasil, que tomou posse em 2011. As mulheres ocupam 20% das cadeiras dos parlamentos no mundo. (...) No Brasil, 9,6% das cadeiras no Congresso são ocupadas por mulheres".

E no mundo empresarial, o que diz Sandberg? "A porcentagem de mulheres em papéis de liderança é ainda menor no mundo empresarial. Entre os diretores executivos das 500 empresas de maior faturamento dos Estados Unidos, apontadas pela Fortune, as mulheres correspondem a magros 4%. (...) Por toda a Europa, as mulheres ocupam 14% dos conselhos de diretoria. No Brasil, as mulheres ocupam cerca de 14% dos cargos executivos nas 500 maiores empresas do país. Na América Latina como um todo, apenas 1,8% das maiores empresas tem mulheres na direção executiva".

O livro de Sandberg, sem dúvida, é um convite a formação da consciência histórica e consequente libertação feminina. Leiamos o que ela diz no final da Introdução - Interiorizando a revolução, página 12: "Podemos reacender a revolução interiorizando a revolução. A mudança para um mundo mais igualitário vai se dar nas pessoas, uma a uma. A meta maior da verdadeira igualdade fica mais próxima cada vez que uma mulher faz acontecer".

Caso o leitor tenha interesse em mais detalhes desse livro, inclusive, conferir a fala de Sandberg, acessar Companhia das Letras.


Jorge Antonio de Queiroz e Silva é historiador, palestrante, professor e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná.
 

 

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