Notícias

Os 120 anos da valentia pacífica do Barão do Serro Azul e a manutenção da República do Brasil

Jorge Antonio de Queiroz e Silva

Barão do Serro Azul. Fonte: Crédito da imagem: Centro Espírita Ildefonso CorreiaLi inúmeros livros que tratam da Revolução Federalista.  A Última Viagem do Barão do Serro Azul [1] é o que mais me chama a atenção. Aborda os momentos dolorosos do povo curitibano, além dos momentos de angústia vividos por Ildefonso Pereira Correia, o Barão do Serro Azul, e dos seus cinco amigos, que foram assassinados pelos "Pica-paus" [2] no Km 65 da Estrada de Ferro Paranaguá-Curitiba durante a Revolução Federalista (1893-1895). O livro serviu de inspiração ao filme O Preço da Paz, [3] inclusive, o DVD do filme vem sendo doado às escolas estaduais do Paraná por intermédio do MIS-Museu da Imagem e do Som.

Convidei Aramis Chain, livreiro, historiador, professor de História, para que fizesse uma palestra intitulada A vida e a Ética do Barão do Serro Azul, somada a uma análise sobre o filme O Preço da Paz, no CEEBJA-Centro Estadual de Educação Básica de Jovens e Adultos Ayrton Senna, em Almirante Tamandaré-PR.

Uma vez aceito o convite, comecei a preparação dos discentes para a palestra e para o filme, com duas semanas de antecedência. Produzi um texto de contextualização de duas páginas sobre a Revolução Federalista e sobre a pessoa do Barão do Serro Azul. Formulei sete perguntas que deveriam ser respondidas no decorrer da projeção do filme e da palestra. Havia uma pergunta instigante: O Barão traiu os Legalistas ("Pica-paus") e fez um acordo com os "Maragatos"? [4]

Embora esse questionamento seja comum entre os intelectuais e no ambiente escolar, neste artigo tem conotação diferente devido à forma com que uma das cenas do filme é apresentada aos telespectadores. Vejamos:

Em 1893, começou o confuso movimento militar e político, no Estado do Rio Grande do Sul, cognominado Revolução Federalista. Por que confuso? Muitas ideologias compunham o imaginário dos revolucionários, ou seja, federalistas, separatistas, anarquistas, monarquistas, parlamentaristas. Só não eram contraditórios no objetivo de afastar do poder o presidente da república, Marechal Floriano Peixoto.

Os "Maragatos" ou federalistas, sob o comando de Gumercindo Saraiva, chegaram a Curitiba no dia 20 de janeiro e permaneceram até 26 de abril de 1894. Embora tivesse prometido que lutaria bravamente contra os invasores, aos 18 de janeiro daquele ano, Vicente Machado, chefe do governo do Paraná na época, optou pela fuga e foi para Castro, acompanhado do padre Alberto Gonçalves, deixando a população e os cristãos à mercê dos invasores. Coube ao Barão do Serro Azul o comando da situação.

Gumercindo Saraiva pediu 1.000 contos de reis. Caso não fosse atendido, faria saques em Curitiba e em outras cidades do Paraná. O Barão coordenou uma Comissão Especial de Empréstimos de Guerra. Conseguiu em todo o Estado a quantia de trezentos contos de reis. Sucederam-se outros empréstimos na tentativa de saciar a ganância dos "Maragatos".

Independentemente da força de barganha, ocorreu um festejo em homenagem à baronesa, Maria José Correia, que levantou suspeitas acerca da conduta do Barão do Serro Azul, conforme explica Vargas (2009, p. 94):

Ocorrendo, a 19 de abril, o aniversário da Baronesa, Serro Azul ofereceu faustoso jantar no seu palacete. Compareceram alguns chefes maragatos e foram inevitáveis os brindes a Gumercindo, Piragibe, Saldanha da Gama e Silveira Martins.

No andar superior homiziados, em silêncio, alguns florianistas, sobreviventes do cerco da Lapa, testemunhavam as contradições do festivo ritual. O tenente Mário Alves Monteiro Tourinho era um deles. O alferes Cândido José Pamplona, outro.

Escondidos pelo Barão, estavam a poucos metros dos comandantes inimigos, a salvo das execuções sumárias que se seguiram à capitulação daquela praça.

O filme O Preço da Paz vai além dos escritos do livro de Vargas, apresenta uma festa baile para comemorar o aniversário da baronesa.

Os discentes do CEEBJA Ayrton Senna apreciaram e demonstraram interesse pelo tema. Do Barão, admiraram a capacidade de negociação com os "Maragatos", o espírito pacífico e bondoso. Não levantaram a possibilidade de o Barão ter traído os "Pica-paus", também não despertaram para o fato de que a festa em homenagem à baronesa em momento de guerra civil, com a presença de "Maragatos", geraria suspeitas.

Em contrapartida, Chain abordou o tema:

O Barão foi uma das personalidades mais importantes que o Paraná teve, um excelente empresário e industrial, um exemplo de chefe de família e protetor da nossa Curitiba. (...).

Em plena guerra civil não se faz festa. Com toda a sua inteligência não agiu com prudência.

A obra fantástica do Barão do Serro Azul, com a ajuda dos seus amigos, foi segurar os "Maragatos" para não subirem até São Paulo. Enquanto isso, a mando de Floriano Peixoto as tropas chegavam a São Paulo. Os "Maragatos" recuaram, voltaram para o Rio Grande do Sul, e a república permanece até aos nossos dias graças à valentia pacífica do Barão. É certo que as suas condutas geraram dúvidas, suspeitas, e por isso foi sentenciado de morte ao lado dos seus amigos sem chances de defesa. (...)

No tocante à festa baile, o filme O Preço da Paz é uma ficção. Eu nunca li nada a respeito.

Considerações - Essas dicotomias aguçam o desenvolvimento do pensar histórico, possibilitam o discernimento de outras versões sobre o mesmo fato, lembrando, como diz Renato Mocellin [5] que não se deve acreditar "em tudo que se nos apresenta como verdadeiro em certas megaproduções".

Está de parabéns a direção administrativa do MIS-Museu da Imagem e do Som pela iniciativa.

Estão de parabéns os discentes que interagem com documentos históricos diversos, por isso desenvolvem a consciência crítica.

Está de parabéns o Aramis Chain pela paixão e desempenho incansável em torno dos temas paranaenses.

Jorge Antonio de Queiroz e Silva é historiador, pesquisador, palestrante, professor. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná.



[1] Vargas, Túlio. A última viagem do Barão do Serro Azul. 2 ed. Curitiba: Juruá, 2009.

[2] "Pica-paus" eram os republicanos que apoiavam Floriano Peixoto, presidente do Brasil, e receberam esta denominação porque os militares usavam "dolmãs" azuis (casacos justos e abotoados) e barretinas vermelhas (coberturas de cabeça).

[3] O filme O Preço da Paz foi produzido, em 2003, pelo curitibano Maurício Appel com o apoio da Petrobras, dirigido por Paulo Morelli, roteiro de Walter Negrão. Os atores principais são Herson Capri (também curitibano), no papel do Barão do Serro Azul, Giulia Gam, que interpreta a Baronesa do Serro Azul, Lima Duarte como Gumercindo Saraiva, Danton Mello, Camila Pitanga, José de Abreu. Premiado no 31.0 Festival de Gramado com três Kikitos: Melhor filme pelo júri popular; Melhor direção de arte; Melhor montagem.

[4] O apelido dado aos federalistas de "Maragatos", deve-se à denominação depreciativa atribuída aos imigrantes de origem espanhola, vindos da Província de Leon, conhecida como Maragateria, da qual Gumercindo Saraiva, um dos líderes da Revolução Federalista, era descendente.

[5] Mocellin, Renato. O cinema e o ensino da história. Curitiba: Nova Didática, 2003, p. 37.

+ noticias

Imagens

Revolução



ENDEREÇO

Um Jeito Novo de Informar | Centro
87230000 | Jussara
SUPORTE