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Os cem anos do começo da Primeira Guerra Mundial

Gravilo Princip - Os cem anos do começo da Primeira Guerra Mundial

Por Jorge Antonio de Queiroz e Silva


No século passado, um terrorista mudou o rumo da história: Gavrilo Princip. De etnia sérvia, Princip nasceu em Oblej, na Bósnia. Os documentos apresentam contradições sobre sua data de nascimento. Princip foi batizado aos 13 de julho de 1894, mas no registro civil consta 13 de junho de 1894. Essa confusão de datas acabou beneficiando-o posteriormente, pois impossibilitou sua condenação à pena de morte pelo assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando e esposa Sofia, crime ocorrido em 28 de junho de 1914, fato que precipitou a eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Relata-se que desde adolescente Princip era pessoa discreta e gostava de ler. Foi um ótimo aluno, cursou o Colégio Técnico em Administração, na cidade de Tuzla, na Sérvia. Por ser idealista, entrou na organização secreta Bósnia Jovem. O motivo principal de sua entrada na organização era o ódio que sentia pelo Império Austro-Húngaro que, no ano de 1908, anexou a Bósnia. Era influenciado por teorias políticas oriundas da Rússia, que defendiam o pan-eslavismo cujas ideias eram de uma nação eslava com a neutralização do herdeiro do trono, o arquiduque Francisco Ferdinando, do império Austro-Húngaro.

Embora com saúde fragilizada, tuberculoso, Princip foi convocado para comandar o assassinato de Francisco Ferdinando. Vejamos:

Em junho de 1914, o Exército Austro-Húngaro resolveu realizar um conjunto de ações militares em território bósnio, que teve Francisco Ferdinando na função de inspetor geral do Exército. Os sérvios entenderam estas ações como provocação. A partir daí começou a se formar um complô para eliminar Ferdinando.

Com apoio da organização denominada Mão Negra, por intermédio de granadas e pistolas, Gavrilo Princip, durante o treinamento (dois meses), destacou-se como exímio atirador. Já seu amigo, Nedjelko Cabrinovic, demonstrou talento no lançamento de granadas. Aos 28 de junho de 1914, ao lado de outros cinco terroristas, Princip e Cabrinovic estavam prontos para o atentado contra Francisco Ferdinando, que percorreria a Appel Quay, rua principal de Sarajevo, na Bósnia, cujo destino era a sede do governo municipal, local da recepção.

Assim que o carro oficial se aproximou da rua, Cabrinovic lançou uma granada na direção de Ferdinando. O motorista conseguiu se desviar, porém a granada atingiu o veículo que vinha atrás com os soldados do exército.

A facção Mão Negra determinava que os terroristas, após o atentado, se suicidassem. Foi o que Cabrinovic tentou fazer, mas não conseguiu. Tomou cianureto velho que só provocou vômito. Detalhe: Cabrinovic se jogou no rio Miljacka, mas este só tinha um metro de profundidade. Uma piada! Cabrinovic foi preso, enquanto os outros terroristas se espalharam. Princip foi a uma delicatéssen (casa de mercearias finas), onde comeu um sanduíche.

Francisco Ferdinando ficou amedrontado e pediu ao motorista que o encaminhasse com agilidade à prefeitura. Após ter cumprido o protocolo de recepção, resolveu visitar os soldados feridos no hospital.

De acordo com Cláudia de Castro Lima, "a ideia, por mais absurda, era fazer o mesmo trajeto pela Appel Quay. Só que o motorista entrou em uma rua errada. Para azar do arquiduque, era a mesma onde Princip estava. Quando ele saía da delicatéssen, a grande surpresa: o carro estava bem à sua frente - e enguiçado. Gavrilo não perdoou. Pegou sua pistola e deu dois tiros. O primeiro atravessou a porta do carro e atingiu a duquesa Sofia no abdômen. O segundo acertou o pescoço do arquiduque. Cinco minutos depois os dois estavam mortos".

A exemplo de Cabrinovic, Princip tentou o suicídio, mas também não deu certo. Ao apontar a arma para a própria cabeça, foi interrompido por uma testemunha que segurou seu braço. Princip foi preso com os demais terroristas, e tentou novamente o suicídio. Ingeriu cianureto, sem resultado. Foi condenado à prisão perpétua (poderia ter sido condenado à forca como os outros terroristas) devido à dúvida sobre a data de seu nascimento (conforme expliquei no primeiro parágrafo). As leis austríacas não permitiam a pena de morte antes dos 21 anos de idade. Tuberculoso, Gavrilo Princip faleceu aos 28 de abril de 1918 no hospital da penitenciária.

O assassinato cometido por Princip foi, sem dúvida, o estopim da Primeira Guerra Mundial, pois, conforme Cláudia de Castro Lima, "só um dos sete terroristas envolvidos no assassinato do arquiduque confessou que a sociedade secreta militar sérvia Mão Negra estava por trás do atentado. Era o que a Áustria-Hungria precisava para declarar guerra à Sérvia. As relações entre os dois países já não eram boas. A Sérvia queria formar a ‘Grande Sérvia', país que reunisse todas as pessoas de etnia eslava. Mas a Áustria-Hungria anexou a Bósnia em 1908 e era uma pedra no sapato. O mesmo acontecia do ponto de vista austríaco: a Sérvia ganhou, em 1913, duas guerras balcânicas e ampliou seu território, ameaçando o poderio do império. O mundo já estava dividido em blocos naquele pós-guerra. A Rússia apoiava a Sérvia e tinha como aliados a França e a Inglaterra. Do outro lado estavam o já decadente Império Austro-Húngaro e a Alemanha. A guerra durou quatro anos".

 

Dicas de leitura

Coleção Os 10 maiores terroristas. São Paulo: Abril, 2005, páginas 12-19.
David Fromkin. Europe's Last Summer: Who Started the Great War in 1914. Knopf, 2004.

 

Jorge Antonio de Queiroz e Silva é palestrante, pesquisador, historiador, professor.  Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná.

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